Em 28 de setembro de 2025, às 10h, no Museu Ruy Menezes, a Academia Barretense de Cultura e a Bravíssimo Cultura e Eventos promovem sarau lírico em homenagem as obras de alguns patronos da ABC, tendo como palco o museu municipal. Na intenção de valorizar o prédio histórico do Museu Ruy Menezes, bem como ofertar a Barretos um evento cultural que homenageie sua história por meio de alguns de seus personagens icônicos, a 1ª edição do Sarau no Museu apresenta trechos das obras de Silvestre de Lima, Jorge Andrade Osório Rocha, Aymoré do Brasil, José Dias Leme, Marcello Tupynambá, Nidoval Reis e Francisco de Assis Bezerra de Menezes.
Para além da música, história e literatura, nosso objetivo é valorizar esse espaço de cultura, memória e identidade que é o nosso Museu Ruy Menezes. Esse prédio de 118 anos foi inaugurado para ser a primeira sede própria da Prefeitura Municipal. Como o nosso primeiro Paço Municipal inaugurado em 1907, na prática, ele abrigou os três poderes, sendo também local de importantes recepções e decisões da história de Barretos. Foi o primeiro prédio a receber a iluminação elétrica, a recepcionar presidentes da República, a arregimentar soldados para a Revolução Constitucionalista de 1932 e tantos outros episódios da nossa história. É, por isso, o melhor lugar para falarmos de história e homenagearmos alguns ícones dela. No dia de hoje, oito patronos da ABC serão homenageados na casa que abriga a nossa história. Viva o museu!
Por: Karla Armani Medeiros, cadeira 7 da ABC.
Hino interpretado pelo cantor lírico e maestro Franco Piérre e pelo pianista Gustavo Manfrim.
Poesia de Silvestre de Lima declamada por Fernanda Vazquez.
Silvestre Gomes de Lima, 1859-1949. Embora tenha vivido apenas 28 anos de sua vida em Barretos e ter atuado como prefeito, deputado estadual e fundador da imprensa na cidade, viveu antes disso uma trajetória ligada à literatura nacional e ao abolicismo. Quando foi estudar Medicina (optando depois por Farmácia) no Rio de Janeiro, entre 1877 e 1885, colaborou nos principais jornais da corte junto a José do Patrocínio, reconhecido líder abolicionista. Neste período, Silvestre frequentava encontros e era amigo daqueles que se tornariam consagrados escritores e políticos brasileiros, como Machado de Assis, Luiz Murat, Pardal Mallet, Arthur Azevedo, Raymundo Correia, Olavo Bilac e outros tantos. Em 1880, publicou o poemeto “A Escravidão” em formato de livro, onde consagrou sua luta pelo abolicionismo. Tornou-se, então, conhecido poeta do estilo Parnasiano e seus versos eram publicados em importantes revistas e periódicos da corte. Conheceu a princesa Isabel em razão de sua luta abolicionista. Tudo isso, antes dos 30 anos de idade.Por tão importante trajetória de vida, homenageamos o patrono da cadeira 4 da ABC.
Leitura dramática de trecho da obra “Labirinto” de Jorge Andrade, por Luciana Gomes, ocupante da cadeira 16 da ABC
Nasceu em 1922, em Jaborandi, na fazenda São Luís dos Coqueiros, no quintal de Barretos, um dos maiores dramaturgos do Brasil e patrono da cadeira 6 da ABC. Eu me refiro a Aluísio Jorge Andrade Franco, o nosso Jorge. Filho de uma família aristocrata, de grandes fazendas, ele não se considerava fazendeiro, mas tornou a sua origem e vivência familiar os principais temas e personagens das suas obras de teatro. Desde cedo amava livros, ouvir estórias, músicas e por isso decidiu enfrentar aquilo que parecia ser o seu destino e foi estudar dramaturgia em São Paulo nos anos 1950. Na Escola de Artes Dramáticas, tendo como conselheira Cacilda Becker, descobriu-se dramaturgo. Dali em diante, escreveu 16 peças teatrais, 6 novelas, 2 livros e colecionou diversos e importantes prêmios nacionais e internacionais. Em 1955, por exemplo, como tão recente dramaturgo, sua peça A Moratória lançou ninguém menos que a jovem atriz Fernanda Montenegro ao teatro. Jorge fez parte de uma época em que o teatro e cinema brasileiros passavam por importantes transformações, cuja geração de atores, autores e diretores transformaram o cenário cultural do país. Mesmo sendo tão reconhecido intelectual, Jorge nunca deixou a nossa Barretos, foi aqui, a pedido dos próprios alunos, que se tornou professor de teatro do Ginásio Vocacional. E por mais que ele seja patrono de dois teatros em Barretos, tudo o que fizermos para ele ainda será pequeno diante da grandeza de sua obra. De onde vem tamanha genialidade? De sua infância. E é sobre isso que a jornalista Luciana Gomes nos mostrará na leitura dramática da obra “Labirinto”, lançada aqui em Barretos no ano de 1978. Neste trecho, Jorge fala da relação que ele tinha com uma tia querida que morava em São Paulo e o quanto o universo que ela apresentou a ele foi essencial à sua descoberta enquanto escritor. Ele não diz, mas o nome dela era Ana de Lima Franco, conhecida como Titinha Franco, uma brava mulher que se aventurou na Revolução Constitucionalista de 1932 na capital.
Por: Karla Armani Medeiros, cadeira 7 da ABC.
Poesia “A Canção dos olhos verdes” de José Dias Leme, declamada por Silvia Petroucic, ocupante da cadeira 31 da ABC.
José Dias Leme, patrono da cadeira 31 da ABC, pode não ser um personagem tão conhecido na história de Barretos, mas foi culturalmente valoroso a ela. Ele viveu 60 anos, nasceu em Santo Amaro e faleceu em Campinas. Era tio do nosso saudoso acadêmico in memoriam José Vicente Dias Leme. José Dias Leme era jornalista, antes de vir a Barretos em 1915, já havia fundado jornais em Pirassununga e Americana. Em Barretos, permaneceu por 7 anos, onde foi guarda-livros de casas bancárias. Foi presidente da União (UEC), sendo em sua gestão a inauguração do prédio da rua 20, onde havia um teatro e foi criado um corpo cênico, itens essenciais para o desenvolvimento do teatro amador barretense. Fez parte da diretoria dos escoteiros, foi fundador do Tiro de Guerra 512. Foi embora de Barretos em 1922, transferindo-se para Campinas onde foi redator chefe da Gazeta de Campinas e colaborador do “Correio Popular”, ao qual escreveu uma novela. Era um escritor nato! Escreveu peças teatrais, poesias, letras de hinos e publicou diversos livros, dentre os quais destacamos “A Canção dos Olhos Verdes”, publicado em 1949, onde há uma poesia com o mesmo nome a qual é recitada pela acadêmica Silvia Correa Petroucic, ocupante da cadeira que leva o seu nome.
Por: Karla Armani Medeiros, cadeira 7 da ABC.
Trovas sortidas do livro “Chuva Miúda” de Nidoval Reis pela acadêmica Rosimeire Mendes, ocupante da cadeira 25 da ABC.
Poesia “A morte será assim… de Nidoval Reis declamada por Jesus Aparecido de Carvalho, ocupante da cadeira 21 da ABC.
Nidoval Reis, patrono da cadeira 23 da ABC, jornalista e poeta que leva o nome da praça que muitos ainda insistem em chamar de Primavera, mas que na verdade se chama Praça Poeta Nidoval Reis. Isso porque, de tão importante que ele foi a Barretos, quando faleceu, em 1985, metade de suas cinzas foram espalhadas naquela praça, onde ele passou a ser patrono. Ele nasceu no distrito de Laranjeiras, em 1922, filho de José e Risoleta. Tornou-se jornalista profissional, tanto que, por intermédio de seu amigo, simplesmente o poeta Guilherme de Almeida, tornou-se repórter do jornal “A Noite”, da capital paulista, e depois colaborou em diversas revistas e jornais conhecidos do país. Foi também diretor de rádio e televisão em outras cidades onde atuou, principalmente em Bauru, onde residiu e faleceu. Como poeta, foi vencedor de um concurso de poesia de Portugal para a escolha de um poema sobre a morte, onde seu poema “A morte será assim” foi escolhido para figurar o portão do cemitério de Coimbra. Escreveu diversos livros de poemas e trovas. Embora não morasse mais em Barretos, homenageou a cidade em seus versos – como o poema “Minha Terra” escrito no centenário de Barretos. Aqui, neste museu, uma área é toda dedicada ao poeta da nossa terra, ilustrando alguns de seus pertences, como um gesto de gratidão a ele. Para ilustrar essa homenagem, a acadêmica Rosimeire declama trovas sortidas do livro “Chuva Miúda” de Nidoval e o acadêmico Jesus Aparecido de Carvalho recita “A morte será assim…”.
Por: Karla Armani Medeiros, cadeira 7 da ABC.

Apresentação da música Tristeza de Caboclo pelo pianista Gustavo Manfrim
Fernando Alvares Lobo, ou melhor, Marcello Tupynambá! Este era o pseudônimo do patrono da cadeira 22 da ABC, que, para além de sua profissão de engenheiro civil, foi um espetacular compositor e maestro brasileiro. Nascido em 1892, ele viveu até seus 61 anos, dentre os quais, apenas quatro foram em Barretos, entre 1917 e 1921. Período curto, mas o suficiente para marcar a vida e produção cultural da cidade. Veio a Barretos para atuar como engenheiro, mas aqui acabou se casando com a jovem Irene de Menezes, com quem teve 7 filhos, e depois foram residir em Olímpia. No ano de seu casamento, 1918, por insistência de sua esposa, Tupynambá compôs diversas melodias para a editora musical Campassi & Camin, em troca de um piano como pagamento. Foi então que o seu tango de grande sucesso, Tristeza de Caboclo, foi gravado em disco estrangeiro e vendeu 120 mil exemplares em 1 ano! Um sucesso à época do fonógrafo! A partir de 1921, ele passou a sofrer com uma doença que lhe tirou grande parte da visão, o afastou da engenharia, mas o aproximou da música. Foi quando ele e a família foram morar em São Paulo e lá tornou-se conhecido maestro e compositor, pois já era reconhecido como um compositor de tangos e maxixes de estilos genuinamente nacionais (era um cheiro de pré-modernismo), cujas temáticas exalavam brasilidade, sertanismo e folclore. Era Marcello da ópera de Puccini, e Tupynambá do tupi brasileiro. Para vivermos esse regionalismo, onde Barretos foi inspiração, Tristeza de Caboclo é apresentada de forma inédita em Barretos pelo pianista Gustavo Manfrim.
Por: Karla Armani Medeiros, cadeira 7 da ABC.
FECHAMENTO
Apresentação musical de obras do compositor Bezerrinha por cantores e músicos da Bravíssimo
Para muitos, ele era Francisco de Assis Bezerra de Menezes, para nós, será sempre Bezerrinha. Barretense, nascido em 1920, o patrono da cadeira 36 da ABC era músico, compositor e advogado. Em sua vida de 75 anos, teve muito história para contar, e talvez a mais emblemática seja quando serviu à Segunda Guerra Mundial como “pracinha” da Força Expedicionária Brasileira. Ficou aquartelado em São Paulo, no Rio de Janeiro e depois seguiu para a Itália servindo ao exército. Para contar essa história, Bezerrinha teve a sensibilidade de doar ao museu uma coleção de objetos da Segunda Guerra, que ficam logo ali, tão distantes no tempo, mas a alguns passos de nós. Se eu fosse vocês, não deixaria de apreciar a sua marmita onde está grafado o nome “Lygia”, que à época era sua noiva, e que já em outubro de 1945, assim que chega da guerra torna-se sua esposa e futuramente a mãe de seus seis filhos. A música, sua eterna companheira, chegou cedo em sua vida, pois aos 18 anos ele já compôs a famosa canção “O Rancho de Barretos”. Barretos e a festa do peão sempre foram temas presentes em suas canções, tanto que a canção “Festa do Peão” (Vento gelado) é quase um hino popular que os barretenses aprendem a cantar ainda nas filas escolares. Em 1953, Bezerrinha orgulha Barretos ao vencer o concurso musical do IV Centenário de São Paulo com a música “Perfil de São Paulo”, que foi consagrada na voz de célebres intérpretes. Com Bezerrinha, é impossível apresentarmos apenas uma canção. Portanto, o nosso sarau é lindamente fechado pela Bravíssimo com as canções do nosso barretense que consagrou nossa cidade ao alto nível da música brasileira.
Por: Karla Armani Medeiros, cadeira 7 da ABC.
Realização: Academia Barretense de Cultura e Bravíssimo Cultura e Eventos
Parceria: Museu Ruy Menezes
Pesquisa histórica, textos e apresentação: Karla Armani Medeiros
Direção musical: Franco Piérre, maestro e cantor lírico
Pianista: Gustavo Manfrim
Arte: Maria Clara Oliveira Calil
Cantores convidados da Bravíssimo Cultura e Eventos
Declamadores convidados: Fernanda Vazquez, Luciana Gomes, Sílvia Petroucic, Jesus Aparecido de Carvalho e Rosimeire Mendes.